sábado, 29 de outubro de 2022

 

 



 

 

 

Se uma rosa guardaste, no teu coração, 

Se a um Deus supremo e justo endereçastes 

Tua humilde oração, se com a taça erguida 

Contaste um dia o teu louvor à vida: 

Tu não viveste em vão! 

 

 

Omar Khayyám 

 

 

 

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

 

 


 

 

Quando acordei esta manhã no quarto úmido e escuro, ouvindo o tamborilar da chuva por todos os lados, tive a impressão de que havia sarado. Estava curada das palpitações no coração que me atormentaram nos últimos dois dias, praticamente impedindo que eu lesse, pensasse ou mesmo levasse a mão ao peito. Um pássaro alucinado se debatia lá dentro, preso na gaiola de osso, disposto a rompê-lo e sair, sacudindo meu corpo inteiro a cada tentativa. Senti vontade de golpear meu coração, arrancá-lo para deter aquela pulsação ridícula que parecia querer saltar do meu coração e sair pelo mundo, seguindo seu próprio rumo. Deitada, com a mão entre os seios, alegrei-me por acordar e sentir a batida tranquila, ritmada e quase imperceptível de meu coração em repouso. Levantei-me, esperando a cada momento ser novamente atormentada, mas isso não ocorreu. Desde que acordei estou em paz.

 

Sylvia Plath (1932- 1963)

 

 

 

 

 

 

 

Take Me Home

sábado, 22 de outubro de 2022

 

 

 


 

 

Tu És uma Mulher Rara

 

 

Minha Anuska, onde foste buscar a ideia de que és uma mulher como outra qualquer? Tu és uma mulher rara, e, além do mais, a melhor de todas as mulheres. Tu própria não sonhas as qualidades que tens. Não só diriges a casa e as minhas coisas, como a nós todos, caprichosos e enervantes, a começar por mim e a acabar no Aléxis. Nos meus trabalhos desces ao mais pequeno pormenor, não dormes o suficiente, ocupada com a venda dos meus livros e com a administração do jornal. Contudo, conseguimos apenas economizar alguns copeques - quanto aos rublos, onde estão eles?

 

Mas a teu lado nada disso tem importância. Devias ser coroada rainha, e teres um reino para governar: juro-te que o farias melhor que ninguém. Não te falta inteligência, bom senso, sentido da ordem e, até... coração. Perguntas como posso eu amar uma mulher tão velha e feia como tu Aí, sim, mentes. Para mim és um encanto, não tens igual, e qualquer homem de sentimentos e bom gosto to dirá, se atentar em ti. Por isso é que às vezes sinto ciúmes. Tu própria nem sabes a maravilha que são os teus olhos, o sorriso e a animação que pões na conversa. O mal é saíres poucas vezes, se não ficarias admirada com o teu êxito. Para mim é melhor assim - no entanto, Anuska, minha rainha, sacrificaria tudo, até os meus ataques de ciúmes, se quisesses sair e distraíres-te. Sim, muito gostaria que te divertisses. E se tivesse ciúmes, vingava-me querendo-te ainda mais.

 

(...) Enfim, não deves admirar-te que te queira tanto, como marido e como homem. Sim, quem, se não tu, me estraga com mimos? Quem, se não tu, se fundiu comigo em corpo e alma? Todos os segredos, nesse ponto nos são comuns! E não havia eu de adorar cada átomo da tua pessoa e beijar-te como te beijo? Tu não podes compreender a mulher-anjo que és.

Mas eu provo-to, quando voltar. Que eu sou de temperamento apaixonado, mas pensas que outro temperamento apaixonado possa amar a tal ponto uma mulher como eu to provei milhares de vezes? É verdade que essas provas antigas não contam, e agora, quando voltar, parece-me que te devorarei com beijos. (Ninguém lerá esta carta, nem tu a mostrarás a ninguém).

 

(...) Escreves-me a frase do costume: que somos umas pessoas muito estranhas - decorreram dez anos e amamo-nos cada vez mais. Se vivermos ainda mais dez anos, dirás então: somos umas pessoas muito estranhas - vivemos juntos vinte anos e amamo-nos cada vez mais. Por mim, respondo eu. Mas viverei ainda dez anos?

 

(...) Anuska, estou a teus pés. Beijo-te e adoro-te. Rezo por ti e para ti. Beijo-te toda, toda. Beijo os pequenos. Diz-lhes que o paizinho não tarda. Ah, meus queridos, que Deus vos guarde.

 

 

Fiodor Dostoievski, in 'Carta a Anna Grigórievna Snítkina (1876)'